Acreditar em profecias, acreditar em um sonho, uma promessa
feita pelo destino, é algo difícil para os descrentes do futuro, aqueles que
acreditam que talvez o mundo possa acabar amanhã.
Eu ainda tinha cinco anos, acompanhava meus pais pelo jardim
da nossa tradicional casa japonesa e a acompanhava com os olhos, a menina de
cabelos escuros, que mal havia aprendido a andar, acompanhando duas mulheres
que à minha visão eram estranhas, eu era novo de mais, não sabia ainda...
Quando eu fiz doze anos eu já havia digerido metade das
informações, eu era o filho de uma tradicional família japonesa e aquela linda
garota de cabelos negros e longos como a noite e de olhos negros e brilhantes
como um par de ônix, era a minha gueixa.
Eu era uma criança, queria me divertir, brincar e enquanto
eu brincava com meus amigos de bola ou estudava, lia meus livros, ela apenas
observava, aquele rosto branco que me lembrava fantasmas de filmes de terror e
a boca vermelha que eu achava que ela havia acabado de beber sangue de alguém.
- Por que você não tira essa maquiagem? – perguntei uma vez.
- Eu sou uma gueixa, meu senhor – ela me respondeu.
Quando eu fiz quinze anos, meus diálogos com ela ainda não
haviam passado do necessário, mas eu estava ficando incomodado com essa situação
que durava a anos, eu começava a ficar irritado com isso, eu resolvi tomar uma
atitude, fechei o livro de supetão e a encarei.
O espanto passou pelos olhos dela, mas ela se acalmou logo
em seguida.
- Qual o seu nome? – perguntei.
- Akina, meu senhor – ela respondeu.
- Quantos anos você tem? – Perguntei novamente.
- Treze – ela respondeu e um desespero me bateu, eu não
sabia mais o que falar, olhei os livros espalhados pela minha escrivaninha e vi
na capa de um, uma flor, nem sei o que aquele livro estava fazendo ali.
- Você gosta de flores? – perguntei e senti e um breve
sorriso se amostrou em seus lábios.
- Sim, meu senhor – ela respondeu.
Não sei o motivo, mas minha mente ficou vazia, eu fiquei em
silencio a encarando, a maquiagem branca de sempre, o canto dos olhos pintados
de vermelho e a boca também, o cabelo que eu tanto apreciava preso num coque –
suspirei fundo – o kimono rosa claro, cobria todo o seu corpo e eu me
perguntava como ela era por baixo das roupas – corpo de criança – minha mente
me avisou, ela só tinha treze anos.
- O senhor – ela disse interrompendo meus pensamentos –
deseja algo de mim? – ela perguntou.
Suspirei novamente e levantei da cadeira, fui até ela e
puxei o palito que prendia seu coque, fazendo seu cabelo negro cair pelas suas
costas como uma cascata.
- Tudo – respondi saindo do quarto.

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