São 17:00h e eu ainda estou indecisa, não sei se vou, ou se
não. Me arrumo, aguardo.
São 17:30h. Tomo minha decisão: Não vou.
Não vou porque não vale a porque não vale a pena o risco.
Não vou porque nem quero tanto assim.
17:35h e minha decisão está realmente tomada. Estou
decidida, firme mesmo.
Tão firme quanto estava nas vezes que disse que ia te
esquecer, ou que dali pra frente seríamos só amigos...
18:00h vou pro ponto de ônibus e já sento no banco tensa.
Tensa porque de novo joguei minha decisão fora. Tensa porque agora eu vou. Eu
vou sim.
No ônibus eu sempre penso como a nossa relação é legal. Como
é legal ter alguém assim, que você não ama tanto. Porque é obvio que eu não te
amo, e que somos só amigos.
Fazer coisas pequenas como essas são um risco pra mim. Mas eu
não corro esse risco porque te amo. Eu corro esse risco porque gosto da
sensação, porque nem sempre gosto de fazer as coisas certas.
Enquanto o ônibus para de ponto em ponto, e as pessoas
entram e saem, minhas mãos suam e meu coração bate mais cada vez mais rápido.
Minhas mãos não suam porque te amo, elas suam porque a
adrenalina do momento explode pelos meus poros.
Chego no meu ponto, desço. Eu geralmente paro uns três
segundos e penso se estou fazendo a coisa certa. A resposta é sempre não,
talvez seja por isso que eu continue fazendo.
Eu ando até o seu prédio. Quer dizer... eu corro até lá.
Enquanto isso eu vou pensando, que preciso aproveitar esses 15 minutos de você.
Preciso aproveitar não por que te amo, mas porque precisa
valer a pena toda a tensão, a mão suada e o coração batendo loucamente.
Chamo no interfone, e espero você descer. Espero com muita
expectativa, espero impacientemente.
Não fico assim por que te amo. Só quero que você apareça o
mais rápido possível me dê alguns beijos e eu possa ir logo embora.
Enquanto te espero, penso. Hoje não quero conversa. Quero um
beijo, um bem demorado, que dure todos esses 15 minutos, e ai eu vou embora.
Você aparece.
Aparece e eu sempre falo alguma coisa bem idiota. Alguma
coisa que sai sem querer da minha boca. São palavras que eu não escolho, elas
simplesmente são cuspidas com o susto do momento.
E ai você faz uma cara tão idiota quanto as minhas palavras
–uma cara idiotamente linda- e ai me abraça.
Me abraça e eu morro no seu abraço. Me sinto um neném
aconchegado. O tempo para de correr e o mundo para de girar. E de repente você
me solta e eu me sinto um neném sem chupeta. E é com esse bico, esse bico que
os nenéns ficam quando tiram repentinamente a chupeta de suas bocas que eu
fico, paralisada, congelada, te olhando.
E ai você começa a falar, e a contar coisas, e eu ali,
paralisada te olhando. E você fala, fala, fala. E depois eu rio, acho graça,
escuto com atenção tudo o que você diz, mas não respondo, não digo nada. Não
por que não quero, mas por que não penso em nada mesmo. Gasto todo o meu cérebro te olhando falar.
E aqueles 15 minutos voam como uma flecha. E quando você
diz: ‘’ah..você tem que ir embora, né?’’ É como se um click ligasse minha mente
e eu voltasse para o mundo real. E ai cai a ficha. Cai a ficha que estou ali,
sentada na sua frente, cai a ficha que meu tempo foi todo embora, cai a ficha que
a minha tensão passou e que agora eu já to tão relaxada que estou sentada
largada e sem postura como uma geleia sobre uma cadeira. Cai a ficha que tudo
que eu planejei fazer foi por água a baixo.
Eu me levanto e pego meu livro. Preciso ir embora.
Mas antes que eu vá você me segura e me beija.
Me beija docemente, lentamente e não tão longamente assim.
Não foi como eu pensei :loucamente por 15 minutos e tchau!
Não só pela parte do louco, ou dos 15 minutos, mas muito
principalmente pela parte do tchau.
Dizer tchau é tão difícil. É mais fácil dizer ‘’Eu não quero
ir embora’’, o que eu sempre digo.
Mas agora você sabe que eu tenho que ir. Me olha com aquela
cara, e ai eu vou.
Vou pensando em como foi bom te ver, vou pensando em como
foi bom te ouvir e em como um doce beijo de um minuto é melhor que um louco de
15. E se não for melhor, é tão bom quanto.
Vou pensando isso e rindo.E pensando o quando eu sou boba
por pensar isso. E pensando o quanto eu sou boba por rir.
De repente eu paro. Paro e penso que realmente sou muito
boba. Paro de rir. Não tem graça.
Não vou mais me arriscar assim pra ficar te ouvindo falar, e
ganhar um beijinho.
Não vou mais ficar feito uma boba desse jeito.
Por que eu realmente fico toda boba. Admito, admito.
Mas não fico assim por que te amo. Fico assim por que...
Eu ainda vou descobrir por que.
Chego na sala de aula e penso como a nossa relação é legal.
Eu não te amar é um fato tão verdadeiro quanto o de que
somos só amigos.
Maria Guimarães

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